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sábado, 29 de fevereiro de 2020

“O MUNDO ESTÁ CANSADO DE MENTIROSOS, DE PADRES DA MODA”, ALERTA PAPA FRANCISCO


Aos novos bispos do curso anual de formação, o papa afirma que fazer pastoral da misericórdia não é fazer liquidação de pérolas.

“Não poupem esforços para ir ao encontro do povo de Deus, estejam perto das famílias com fragilidade. Nos seminários, apontem para a qualidade, não para a quantidade. Desconfiem dos seminaristas que se refugiam na rigidez.”

“O mundo está cansado de encantadores mentirosos… e, eu me permito dizer, de padres ou bispos na moda. As pessoas ‘farejam’ e se afastam quando reconhecem os narcisistas, os manipuladores, os defensores das causas próprias, os arautos de cruzadas vãs.”

O Papa Francisco dirigiu um longo discurso aos bispos recém-nomeados, em Roma, para um curso de formação, tocando diversas questões do seu ministério, a partir da necessidade de tornar pastoral – “isto é, acessível, tangível, encontrável” – a misericórdia, que é o “resumo daquilo que Deus oferece ao mundo”.

Os bispos, disse Jorge Mario Bergoglio, devem ser capazes de encantar e de atrair os homens e as mulheres do nosso tempo a Deus, sem “lamentações”, sem “deixar nada de não tentado a fim de alcançá-los” ou “recuperá-los”, e graças aos percursos de iniciação (“Hoje, pedem-se frutos demais de árvores que não foram cultivadas o suficiente”).

Além disso, é necessário vigiar a formação dos futuros sacerdotes, apontando para a “qualidade do discipulado”, e não para a “quantidade” de seminaristas, e usando “cautela e responsabilidade” ao acolher sacerdotes na diocese.
Francisco também convidou os novos bispos a estarem perto do seu clero, àqueles que Deus coloca “por acaso” no seu caminho e às famílias com as suas “fragilidades”.

“Perguntem a Deus, que é rico em misericórdia – disse o papa aos 154 novos bispos (16 dos territórios de missão) que participaram do curso anual de formação promovido conjuntamente pela Congregação para os Bispos e pela Congregação para as Igrejas Orientais – o segredo para tornar pastoral a Sua misericórdia nas suas dioceses.

De fato, é preciso que a misericórdia forme e informe as estruturas pastorais das nossas Igrejas. Não se trata de rebaixar as exigências ou vender barato as nossas pérolas. Ou, melhor, a única condição que a pérola preciosa dá àqueles que a encontram é a de não poder reivindicar menos do que tudo.

Não tenham medo de propor a Misericórdia como resumo daquilo que Deus oferece ao mundo, porque o coração do homem não pode aspirar a nada maior”, disse Francisco, que, sobre a misericórdia como “limite para o mal”, citou Bento XVI, acrescentando duas perguntas retóricas: “Por acaso, as nossas inseguranças e desconfianças são capazes de suscitar doçura e consolação na solidão e no abandono?”.

Para tornar a misericórdia “acessível, tangível, encontrável”, acima de tudo, o papa recordou que “um Deus distante e indiferente pode ser ignorado, mas não resistimos facilmente a um Deus tão próximo e, além disso, ferido por amor.

A bondade, a beleza, a verdade, o amor, o bem – eis o que podemos oferecer a este mundo mendicante, ainda que em vasos meio quebrados. No entanto, não se trata de atrair a si mesmos.

O mundo – disse Francisco – está cansado de encantadores mentirosos… e, eu me permito dizer, de padres ou bispos na moda. As pessoas ‘farejam’ e se afastam quando reconhecem os narcisistas, os manipuladores, os defensores de causas próprias, os arautos de cruzadas vãs. Em vez disso, tentem ajudar a Deus, que já Se introduz antes ainda da chegada de vocês”.

Nesse sentido, “Deus não se rende nunca! Somos nós, que, acostumados ao rendimento, muitas vezes nos acomodamos, preferindo nos deixar convencer que realmente puderam eliminá-Lo e inventamos discursos amargos para justificar a preguiça que nos bloqueia no som imóvel das lamentações vãs: as lamentações de um bispo são coisas feias”.

Em segundo lugar, é necessário, segundo o papa, “iniciar” aqueles que são confiados aos pastores: “Eu lhes peço para não terem outra perspectiva para olhar os seus fiéis do que a da sua unicidade, de não deixarem nada de não tentado a fim de alcançá-los, de não poupar qualquer esforço para recuperá-los.

Sejam bispos capazes de iniciar as suas Igrejas nesse abismo de amor. Hoje – disse Francisco – pedem-se frutos demais de árvores que não foram cultivadas o suficiente. Perdeu-se o sentido da iniciação, e, no entanto, nas coisas realmente essenciais da vida, tem-se acesso apenas mediante a iniciação.

Pensem na emergência educativa, na transmissão tanto dos conteúdos quanto dos valores, no analfabetismo afetivo, nos percursos vocacionais, no discernimento nas famílias, na busca da paz: tudo isso requer iniciação e percursos guiados, com perseverança, paciência e constância, que são os sinais que distinguem o bom pastor do mercenário”.

Francisco se debruçou com atenção particular sobre o tema da formação dos futuros padres: “Peço-lhes que cuidem com especial solicitude as estruturas de iniciação das suas Igrejas, em particular os seminários.

Não os deixem ser tentados pelos números e pela quantidade das vocações, mas busquem a qualidade do discipulado.

Não privem os seminaristas da sua firme e terna paternidade. Façam-nos crescer a ponto de adquirir a liberdade de estar em Deus ‘tranquilos’ e serenos como crianças desmamadas nos braços da sua mãe”; não como presas dos próprios caprichos e escravos das próprias fragilidades, mas livres para abraçar aquilo que Deus lhes pede, mesmo quando isso não parece tão doce quanto o seio materno era no início.

E fiquem atentos quando alguns seminaristas se refugiam na rigidez; por baixo, sempre há algo de feio”.

E ainda: “Eu lhes peço também para agirem com grande prudência e responsabilidade ao acolher candidatos ou incardinar sacerdotes nas suas Igrejas locais. Por favor, prudência e responsabilidade nisso.

Lembrem-se de que, desde o início, quis-se como inseparável a relação entre uma Igreja local e os seus sacerdotes, e nunca se aceitou um clero vagante ou em trânsito de um lugar para outro. E essa é uma doença dos nossos tempos”.

Por fim, o papa pediu que os bispos sejam “capazes de acompanhar”, citando, a esse respeito, a parábola do bom samaritano: “Sejam bispos com o coração ferido por tal misericórdia e, portanto, incansável na humilde tarefa de acompanhar o homem que, ‘por acaso’, Deus colocou no seu caminho”.

E, ainda, recomendou o papa aos novos bispos, “acompanhem por primeiro, e com paciente solicitude, o seu clero” e “reservem um acompanhamento especial para todas as famílias, regozijando-se com o seu amor generoso e encorajando o imenso bem que elas dispensam neste mundo. Acompanhem sobretudo as mais feridas. Não ‘passem ao largo’ diante da sua fragilidade”.

“Fico alegre por acolhê-los e por poder compartilhar com vocês alguns pensamentos que vêm ao coração do sucessor de Pedro, quando vejo diante de mim aqueles que foram ‘pescados’ pelo coração de Deus para guiar o Seu povo santo”, tinha iniciado o papa.
“Deus os livre de tornar vão tal frêmito, de domesticá-lo e esvaziá-lo da sua potência ‘desestabilizadora’. Deixem-se desestabilizar, é bom para um bispo”, disse Francisco.

“Muitos, hoje, se mascaram e se escondem. Eles gostam de construir personagens e inventar perfis. Tornam-se escravos dos parcos recursos que recolhem e aos quais se agarram como se bastassem para comprar o amor que não tem preço.

Não suportam o frêmito de se saberem conhecidos por Alguém que é maior e não despreza o nosso pouco, é mais Santo e não culpa a nossa fraqueza, é realmente bom e não se escandaliza com as nossas chagas.

Não seja assim para vocês”, concluiu: “Deixem que tal frêmito percorra vocês. Não removam-nos nem o silenciem”.

via Aleteia

sábado, 22 de fevereiro de 2020

“Fora nazista”: torcida reage e homem é preso por racismo durante jogo

Leroy Kwadwo (c.) é consolado por jogador da equipe adversária após insultos racistas de torcedor (Foto: picture-alliance/dpa/nordphano)

Por Geledés

Um torcedor foi preso numa partida da terceira divisão do futebol alemão na noite da última sexta-feira (14/02), após ter sido identificado por outros espectadores como autor de ofensas racistas contra um jogador da equipe visitante.

Um apoiador do time local, o Preußen Münster, proferiu insultos racistas e imitou ruídos de macaco para provocar o zagueiro Leroy Kwadwo, de origem ganesa, do Würzburger Kickers. Outros torcedores presentes no estádio o apontaram e ajudaram os seguranças a identificá-lo para que pudesse ser preso, sob gritos de “fora nazistas”.

“Isso é algo que não tem lugar em um campo de futebol e, certamente, não em nosso estádio”, disse o presidente do Preußen Münster, Christopher Strasser. “Nos distanciamos claramente desse tipo de atitude; eu pedi desculpas ao Würzburg logo após o jogo.”

Em seu perfil no Instagram, Kwadwo lamentou o ocorrido e agradeceu o apoio dos torcedores da equipe adversária. “Isso me deixa triste e com raiva. Minha pele é de outra cor, mas eu nasci aqui. Sou um de vocês. Eu vivo aqui e posso viver minha paixão e destino como atleta do Würzburg”, afirmou o jogador, de 23 anos.

“A reação de vocês foi exemplar – vocês não podem imaginar o que isso significa para mim e para outros jogadores de cor”, afirmou Kwadwo aos apoiadores do Preußen Münster. “Obrigado pela humanidade de vocês!”

Após o jogo, Kwadwo disse a emissora ZDF que a reação dos torcedores o ajudou a manter a calma. “Quando algo assim acontece e é cortado logo de inicio, essas pessoas não têm chance nenhuma”, observou. “O futebol tem grande poder. Devemos todos permanecer unidos para dizer que, se isso continuar, então não vamos jogar”, afirmou.

O técnico do Würzburg, Michael Schiele, qualificou a reação dos torcedores do Münster de “sensacional”.

“Espero que não permitam que ele vá a um jogo de futebol novamente”, disse no Twitter o capitão da equipe, Sebastian Schuppman, sobre o torcedor que proferiu os insultos.

Segundo o jornal Westfälischen Nachrichten, o agressor era um homem de 29 anos da cidade de Steinfurt. De acordo com a polícia, ele deverá responder na Justiça por incitamento ao ódio.

A Federação Alemã de Futebol (DFB) elogiou a reação da árbitra Katrin Rafalski. Ela tentou acalmar o jogador após ser informada por ele do que estava acontecendo e ordenou que fosse emitido um anuncio no estádio em razão do ocorrido, acatando o procedimento estabelecido pela Uefa para casos como esse.

A DFB qualificou o episódio como “triste e vergonhoso”. O incidente ocorre dez dias após torcedores do Schalke 04 insultarem o jogador Jordan Torunarigha, do Hertha Berlim, durante uma partida da Copa da Alemanha. O clube foi multado pela DFB em 50 mil euros.

Após os ânimos se acalmarem, a partida entre o Preußen Münster e o Würzburger Kickers pôde prosseguir. O placar final foi de zero a zero, mas Kwadwo saiu de campo como vencedor em mais um episódio envolvendo o racismo no futebol.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

“O governo não irá nos dividir”, diz líder Tuíra Kayapó


Por Amazônia Real


Aldeia Piaraçu/TI Capoto Jarina, São José do Xingu (MT) – Líder feminina histórica do movimento indígena, Tuíra Kayapó é um dos grandes nomes do “Encontro dos Povos Mebengokrê e lideranças indígenas do Brasil”, que acontece nesta semana na Terra Indígena Capoto Jarina, no rio Xingu, em Mato Grosso. O encontro se encerra nesta sexta-feira (17). Em entrevista exclusiva à Amazônia Real, Tuíra Kayapó lembrou do gesto que tornou-se símbolo da luta de seu povo contra as barragens, há 31 anos. Ela também defendeu o surgimento de novas lideranças femininas e reforçou a união dos povos indígenas: “O governo não irá nos dividir”, declarou Tuíra, à reportagem.
Tuíra Kayapó tornou-se mundialmente conhecida por seu papel decisivo no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em Altamira (PA), quando em fevereiro de 1989 diversas nações indígenas debateram a construção da hidrelétrica de Kararô, atual Belo Monte. A imagem da jovem Tuíra encostando um facão no rosto do então presidente da Eletronorte, engenheiro José Antônio Muniz Lopes, e explanando o grito Kayapó de luta – “Tenotã-mõ” -, tornou-se referência para todos que defendem a Amazônia.
“Eu só queria mostrar a ele o que é opressão. Estava lá e só ouvia aquele homem branco insistindo em uma fala para construir a hidrelétrica”, conta Tuíra, com tradução de sua neta O.é Paikan. O gesto de Tuíra teve grande repercussão em um contexto de discussão sobre barragens no rio Xingu do qual os indígenas tinham pouca participação nas reuniões com autoridades do governo brasileiro – na época, o presidente da República era José Sarney (MDB). O projeto de Belo Monte foi temporariamente engavetado, mas voltou nos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e dos petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (2003-2016).
Tuíra ameaça com um facão o então presidente da Eletronorte, José Antonio Muniz Lope( Foto: Protássio Nêne/Estadão Conteúdo-1989)
Na entrevista à Amazônia Real, Tuíra falou de suas esperanças sobre o surgimento de novas lideranças e da participação da mulher na publicação do documento que será divulgado nesta sexta (17) no final do “Encontro dos Povos Mebengokrê e lideranças indígenas do Brasil”, que reúne mais de 600 indígenas de 45 etnias e pessoas não-indígenas, na aldeia Piaraçu da Terra Indígena Capoto Jarina, onde vive seu avó e anfitrião da reunião, o líder Raoni Kayapó.
Nesta quinta-feira (16), Tuíra integrou a mesa de debate das mulheres indígenas que redigiram uma Carta manifestando o resultado de discussões delas entre as vozes masculinas dos grandes caciques presentes.
“Nós, mulheres indígenas de mais de diferentes povos indígenas do Brasil, representadas por várias regiões (…) concebemos coletivamente esse grande chamado do Cacique Raoni (…). Enquanto mulheres lideranças e guerreiras, geradoras e protetoras da vida, iremos nos posicionar e lugar contra as questões e as violações que afrontam nossos corpos e nossos territórios”, foram os dizeres de abertura do documento que tratou de temas ligados à saúde indígena, educação, violência e por mais igualdade de decisões dentro dos territórios indígenas.

Nascida antes do contato com os sertanistas do órgão indigenista da época, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), na década de 1940, quando os Kayapó habitavam a bacia do Butire, como chamam o rio Xingu, Tuíra é inspiração das jovens na construção de um novo protagonismo feminino indígena nas aldeias. Foi ela quem liderou a comitiva Kayapó durante a marcha “Meu corpo, meu território”, o 1º Encontro Nacional de Mulheres Indígenas, que aconteceu em Brasília em agosto de 2019, reunindo mais de duas mil mulheres.

Para Tuíra, a união é o principal resultado do encontro na Aldeia Piaruçu.  “No passado, houve muitas guerras entre nós, mas hoje estamos todos juntos, deixando as divergências de lado. Não podemos deixar o governo vir com promessas e nos separar novamente.  Nós lideranças temos muita responsabilidade porque somos o espelho para os jovens; é isso que buscamos aqui”, afirmou.

Demandas femininas

Tuíra (de vestido verde entre Raoni e Ângela Mendes e a neta de vermelho atrás com demais lideranças (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
Nos últimos dias, em frente à uma plateia formada por muitos caciques e grande parte pelo público masculino, as lideranças mulheres debaterem temas que muitas vezes acabam de fora nesse tipo de encontro. O atendimento da saúde indígena seria um dos focos das demandas femininas. Jovens lideranças fazem críticas às constantes mudanças realizadas na gestão da saúde indígena ao longo dos anos. É o caso de Maial Paiakan Kayapó. A jovem indígena lembra que mudanças ocorreram descontextualizada e sem a participação dos indígenas nas discussões sobre a saúde indígena no passado. Ela cita a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que até 2010 era responsável pela saúde indígena. Naquele ano, a gestão foi tirada da Funasa, após a criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).
“As mudanças nas coordenações da Funasa e as novas políticas públicas construídas fora do contexto indígena só trazem retrocessos. Demoramos muito tempo para conquistar certas modificações, como a integração das agentes de saúde mulheres. Agora não temos mais garantias que isso continue”, explicou Maial Paiakan Kayapó, neta de Tuíra. Ela trabalhou por dois anos na Sesai.

Maial Paiakan Kayapó diz que o desrespeito ao conhecimento tradicional no atendimento indígena é uma das consequências das mudanças na saúde indígena. “A desvalorização das parteiras,  o não cumprimento ao período de resguardo pós-parto e a proibição do uso da medicina e das ervas indígenas nos períodos  colocam em risco a vida da mulher indígena”, afirma Maial.


Violência contra as mulheres indígenas

Célia Xakriaba no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: AIK Produções)
Durante o encontro, as mesas lideradas por mulheres deram coragem para que muitas outras indígenas manifestassem suas denúncias. Os efeitos da extração ilegal de minério e madeira permearam as falas da plenária. “Os brancos confundem a mente da comunidade com o dinheiro. Precisamos de ajuda para acabar com o garimpo em nossa terra que só traz prostituição e álcool. E os homens acabam se envolvendo nesse esquema muito mais do que as mulheres”, afirmou Valdete Kayabi, sob aplausos.

A violência contra as mulheres nas aldeias foi outro ponto importante debatido de forma inédita em um encontro dessa natureza. “Entre os Xavantes esse foi um dos temas que as mulheres das aldeias nos trouxeram. É um assunto delicado, pois foi praticado pelos próprios moradores das aldeias, mas estamos tentando compreender e criar ações para combater. Esse tipo de violência nunca tinha acontecido antes entre o nosso povo”, explicou Samantha Ròotsitsina, filha do primeiro deputado indígena do país, Mario Juruna (1943-2002), e que também integra as mesas das lideranças femininas.
“Nós não vamos aceitar mais violência tendo ‘cultura’ como desculpa. Muitas questões precisam ser revistas. O nosso território é o nosso corpo e o nosso espírito”, diz Célia Xakriabá, uma das coordenadoras da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), e primeira de seu povo a cursar doutorado –  tem formação em Antropologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Para a ex-candidata a senadora Telma Taurepang, de Roraima, o evento trouxe avanços sobretudo para as mulheres xinguanas.
“Quando vemos de fora tudo parece acontecer a passos lentos. Nós, do lavrado, fomos contatados há mais tempo. Aqui (no Xingu) foi um contato recente. Mas as xinguanas já são parte discussão. Elas foram a maioria na participação das Marcha das Mulheres Indígenas lideradas pela Tuíra Kayapó e sempre foi a nossa grande inspiração como mulher indígena”, diz Telma Taurepang.
Telma Taurepang no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: AIK Produções)


“Não devemos deixar o idioma e as diferenças culturais nos separarem. Quem mora no litoral e em outras áreas tiveram o contato mais antigo, muitas de nós perderam o tronco linguístico. Devemos investir em encontros e nos fortalecer. Toda experiência de troca é muito importante entre nós mulheres indígenas”, disse Lucilene Martins Tremembé, que participou da redação da Carta das Mulheres Indígenas. Os Tremembé têm seu território tradicional localizado no Ceará.

As mulheres também se mobilizaram contra as acusações da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro, a pastora evangélica Damares Alves. Damares frequentemente afirma que práticas ancestrais, abandonadas há décadas por grande parte das etnias brasileiras, ainda são rotina nas aldeias. A ministra costuma exemplificar essas chamadas “práticas ancestrais” com o que ela considera “infanticídio” de crianças indígenas baseada em relatos sem comprovação.

“Os casos são muito raros e, na maioria das vezes, são ligados ao abandono total do Estado e falta de apoio a essas comunidades”, diz Maial Paiakan. “É uma vergonha ter uma mulher no ministério com essa visão tão machista. Ela nem poderia falar de algo que não tem propriedade”, completa a liderança.
“Muita coisa mudou entre o nosso povo, inclusive temos muitas caciques mulheres e estudantes entre nós”, conclui a jovem Kayapó que, como todas as suas irmãs, tem curso superior e integra uma nova geração de indígenas que estão casando após os 30 anos de idade.

Para Tuíra Kayapó, a fala do atual governo apenas reforça o preconceito contra a mulher indígena. “Somos todos seres iguais, seres humanos. Temos pele e corpos iguais”, relembra Tuíra. “Na religião de vocês tem um Deus que disse que todos são iguais e que devemos tratar todos bem. Onde está isso? Não era para ter preconceito, era para todos vivermos em paz e união?”.

Mulheres nas eleições

Telma Taurepang durante durante encontro na Aldeia Piaruçu, TI Capoto Jarina, em Mato Grosso. (Foto: Juliana Arini/Amazônia Real)
Célia Xakriabá, de Minas Gerais, afirma que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) tem interesse em ampliar a participação das mulheres indígenas nas eleições. A proposta é lançar nomes já nas campanhas municipais de 2020,  para garantir possíveis vagas no legislativo e executivo. Mas algumas indígenas ainda analisam a ideia com cautela. “Ser candidata não está entre os meus planos, eu só o faria se tivesse um plano sério envolvido. Sei que tem todo o peso da história do meu pai (Mário Juruna). Mas, é algo que precisa vir com uma proposta concreta”, explica Samantha Ròotsitsina.

Sucessão feminina

Cacique Raoni e lideranças no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
Uma das surpresas do evento foi a divulgação pelo cacique Raoni de que a escolha do seu possível sucessor, entre o seu povo, incluirá a presença feminina. Caso isso se concretize a liderança deve quebrar a tradição patrilinear de sucessão Kayapó. “Será um homem e uma mulher”, respondeu o cacique ao ser questionado pela Amazônia Real durante a coletiva de imprensa na tarde de quarta-feira (15).

O Encontro dos Povos Mebengokrê e lideranças indígenas do Brasil é promovido pela liderança Raoni Kayapó através do Instituto Raoni. O intuito da reunião é unir as vozes dos povos indígenas brasileiros frente às mudanças nas políticas para os indígenas promovidas pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.

A iminência de votação dos projetos de leis que liberam o arrendamento e a mineração em terras indígenas, entre outras questões, está entre os principais pontos que mobilizaram as lideranças. Participaram cerca de 600 povos indígenas de 45 etnias. O documento final das plenárias indígenas deve ser divulgado na tarde desta sexta-feira.
  • Cacique Raoni no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Cacique Raoni no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto:Eric Marky Terena/Mídia Índia/Cobertura Colaborativa)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Kamikiá Kisedjê/Cobertura Colaborativa)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto:Eric Marky Terena/Mídia Índia/Cobertura Colaborativa)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto Midia Índia/Cobertura Colaborativa)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Mulheres indígenas no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Indígena amamenta o filho durante o Encontro (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Tuíra Kaiapó durante encontro na Aldeia Piaruçu, TI Capoto-Jarina, em Mato Grosso.(Foto: Juliana Arini/Amazônia Real)
  • Tuíra Kaiapó e sua neta O.é Paiakan Kaiapó (Foto: Juliana Arini/Amazônia Real)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto:Eric Marky Terena/Mídia Índia/Cobertura Colaborativa)
  • Tuíra Kayapó no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto:Eric Marky Terena/Mídia Índia/Cobertura Colaborativa)
  • Filha de Chico Mendes, Ângela Mendes no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Caciques reunidos no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Cacique Megaron no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê e lideranças indígenas do Brasil, que reuniu mais de 600 indígenas de 47 etnias (Foto: AIK Produções)
  • Cacique Raoni no Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto Midia Ninja/Cobertura Colaborativa)
  • Encontro dos Povos Mebengokrê (Foto: Kamikiá Kisedjê/Cobertura Colaborativa)
  • Aldeia Piaruçu da Terra Indígena Capoto Jarina, Mato Grosso (Foto: Mídia Ninja/Cobertura Colaborativa)

*A repórter Juliana Arini foi enviada pela agência Amazônia Real à Aldeia Piaraçu para cobrir o Encontro Mebengokrê a convite da Fundação Raoni.

Descaso mortal: 340 milhões de crianças sofrem de fome oculta no mundo


Por Observatório do 3° Setor

Em pleno século 21, a má nutrição prejudica profundamente o crescimento e o desenvolvimento das crianças. A menos que isso seja tratado, as crianças e as sociedades terão dificuldade em atingir seu pleno potencial. É o que diz o relatório ‘Situação Mundial da Infância 2019: crianças, alimentação e nutrição’, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

O relatório mostra que 340 milhões de crianças sofrem com a fome oculta – deficiência de vitaminas e minerais –, 149 milhões de crianças com menos de 5 anos têm déficit de crescimento e quase 50 milhões têm baixo peso por falta de alimentação.

No mundo, pelo menos 1 em cada 3 crianças menores de 5 anos não está crescendo bem devido à má nutrição em suas formas mais visíveis: desnutrição crônica e desnutrição aguda.

A desnutrição aguda (baixo peso para a altura) pode ser letal para as crianças, principalmente nas formas mais graves. Ao contrário do que se pensa, a maioria das crianças com baixo peso em todo o mundo vive na Ásia.

A fome oculta prejudica crianças e também mulheres. A deficiência de ferro reduz a capacidade das crianças de aprender e a anemia por deficiência de ferro aumenta o risco de morte das mulheres durante ou logo após o parto.

As famílias pobres tendem a selecionar alimentos de baixa qualidade que custam menos. Por causa da pobreza e da exclusão, as crianças mais desfavorecidas enfrentam o maior risco de todas as formas de desnutrição.

O relatório aponta também os extremos: milhões de crianças estão comendo muito pouco do que precisam e milhões estão comendo muito do que não precisam, e acabam ficando obesas.

O sobrepeso infantil pode levar ao aparecimento precoce de diabetes tipo 2, estigmatização e depressão, e é um forte indicador da obesidade adulta, com sérias consequências econômicas e de saúde.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Papa Francisco recebe Lula no Vaticano

PAPA FRANCISCO RECEBE LULA NO VATICANO - FOTO: RICARDO STUCKERT

Lula conversou com o pontífice sobre, entre outros temas, desigualdade social e ‘um mundo mais justo e fraterno’

Nesta quinta-feira 13, o papa Francisco recebeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Vaticano, em uma visita de cortesia intermediada pelo presidente argentino Alberto Fernández. Durante o encontro, Lula conversou com o pontífice sobre, entre outros temas, desigualdade social e “um mundo mais justo e fraterno”, como escreveu posteriormente o ex-presidente, em sua conta pessoal no Twitter.

 

O papa tem demonstrado constante atenção sobre o Brasil, principalmente em relação à Amazônia. Na quarta-feira 12, publicou a exortação apostólica pós-sinodal sobre a floresta, com o título de “Querida Amazônia”.

“Dirijo esta Exortação ao mundo inteiro, para ajudar a despertar a estima e solicitude pela Amazônia, que também é nossa”, escreveu. “Sonho com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida. Sonho com uma Amazônia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana.”

“Querida Amazônia” foi assinada em 2 de fevereiro após a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica, realizada entre 6 e 27 de outubro de 2019, em Roma.

Lula viajou ao Vaticano na terça-feira 11 e retorna ao Brasil no sábado 15.

Papa Francisco aponta crime de Bolsonaro um dia antes de encontrar Lula

Papa Francisco e Jair Bolsonaro no detalhe (Foto: Reuters | PR)
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Por Brasil 247


O Papa Francisco apresentou nesta quarta-feira (12) seu texto sobre o Sínodo da Amazônia. No documento intitulado “Querida Amazônia”, sem dizer o nome de Bolsonaro, ele classifica como "injustiça e crime" o desmonte da agenda ambiental, como a exploração mineral de terras indígenas e a legalização do garimpo.


Veja o contéudo do documento publicado no Vatican News - “A Amazônia querida apresenta-se aos olhos do mundo com todo o seu esplendor, o seu drama e o seu mistério.” Assim tem início a Exortação apostólica pós-sinodal, Querida Amazônia. O Pontífice, nos primeiros pontos, (2-4) explica “o sentido desta Exortação”, rica de referências a documentos das Conferências episcopais dos países amazônicos, mas também a poesias de autores ligados à Amazônia. Francisco destaca que deseja “expressar as ressonâncias” que o Sínodo provocou nele. E esclarece que não pretende substituir nem repetir o Documento final, que convida a ler “integralmente”, fazendo votos de que toda a Igreja se deixe “enriquecer e interpelar” por este trabalho e que a Igreja na Amazônia se empenhe “na sua aplicação”. O Papa compartilha os seus “Sonhos para a Amazônia” (5-7), cujo destino deve preocupar a todos, porque esta terra também é “nossa”. Assim, formula “quatro grandes sonhos”: que a Amazônia “que lute pelos direitos dos mais pobres”, “que preserve a riqueza cultural”, que “que guarde zelosamente a sedutora beleza natural”, que, por fim, as comunidades cristãs sejam “capazes de se devotar e encarnar na Amazônia”.

O sonho social: a Igreja ao lado dos oprimidos

O primeiro capítulo de Querida Amazônia é centralizado no “Sonho social” (8). Destaca que “uma verdadeira abordagem ecológica” é também “abordagem social” e, mesmo apreciando o “bem viver” dos indígenas, adverte para o “conservacionismo”, que se preocupa somente com o meio ambiente. Com tons vibrantes, fala de “injustiça e crime” (9-14). Recorda que já Bento XVI havia denunciado “a devastação ambiental da Amazônia”. Os povos originários, afirma, sofrem uma “sujeição” seja por parte dos poderes locais, seja por parte dos poderes externos. Para o Papa, as operações econômicas que alimentam devastação, assassinato e corrupção merecem o nome de “injustiça e crime”. E com João Paulo II, reitera que a globalização não deve se tornar um novo colonialismo.

Os pobres sejam ouvidos sobre o futuro da Amazônia

Diante de tanta injustiça, o Pontífice fala que é preciso “indignar-se e pedir perdão” (15-19). Para Francisco, são necessárias “redes de solidariedade e de desenvolvimento” e pede o comprometimento de todos, inclusive dos líderes políticos. O Papa ressalta o tema do “sentido comunitário” (20-22), recordando que, para os povos amazônicos, as relações humanas “estão impregnadas pela natureza circundante”. Por isso, escreve, vivem como um verdadeiro “desenraizamento” quando são “forçados a emigrar para a cidade”. A última parte do primeiro capítulo é dedicado às “Instituições degradadas” (23-25) e ao “Diálogo social” (26-27). O Papa denuncia o mal da corrupção, que envenena o Estado e as suas instituições. E faz votos de que a Amazônia se torne “um local de diálogo social” antes de tudo “com os últimos. A voz dos pobres, exorta, deve ser “a voz mais forte” sobre a Amazônia.

O sonho cultural: cuidar do poliedro amazônico


O segundo capítulo é dedicado ao “sonho cultural”. Francisco esclarece que “promover a Amazônia” não significa “colonizá-la culturalmente” (28). E recorre a uma imagem que lhe é cara: “o poliedro amazônico” (29-32). É preciso combater a “colonização pós-moderna”. Para Francisco, é urgente “cuidar das raízes” (33-35). Citando Laudato si’ e Christus vivit, destaca que a “visão consumista do ser humano” tende a “a homogeneizar as culturas” e isso afeta sobretudo os jovens. A eles, o Papa pede que assumam as raízes, que recuperem “a memória danificada”.

Não a um indigenismo fechado, é preciso um encontro intercultural

A Exortação se concentra depois sobre o “encontro intercultural” (36-38). Mesmo as “culturas aparentemente mais evoluídas”, observa, podem aprender com os povos que “desenvolveram um tesouro cultural em conexão com a natureza”. A diversidade, portanto, não deve ser “uma fronteira”, mas “uma ponte”, e diz não a “um indigenismo completamente fechado”. A última parte do segundo capítulo é dedicada ao tema “culturas ameaçadas, povos em risco” (39-40). Em qualquer projeto para a Amazônia, esta é a recomendação do Papa, “é preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos”. Estes, acrescenta, dificilmente podem ficar ilesos se o ambiente em que nasceram e se desenvolveram “se deteriora”.

O sonho ecológico: unir cuidado com o meio ambiente e cuidado com as pessoas


O terceiro capítulo, “Um sonho ecológico”, é o mais relacionado com a Encíclica Laudato si’. Na introdução (41-42), destaca-se que na Amazônia existe uma relação estreita do ser humano com a natureza. Cuidar dos irmãos como o Senhor cuida de nós, reitera, “é a primeira ecologia que precisamos”. Cuidar do meio ambiente e cuidar dos pobres são “inseparáveis”. Francisco dirige depois a atenção ao “sonho feito de água” (43-46). Cita Pablo Neruda e outros poetas locais sobre a força e a beleza do Rio Amazonas. Com suas poesias, escreve, “ajudam a libertar-nos do paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza”.

Ouvir o grito da Amazônia, o desenvolvimento seja sustentável

Para o Papa, é urgente ouvir o “grito da Amazônia” (47-52). Recorda que o equilíbrio planetário depende da sua saúde. Escreve que existem fortes interesses não somente locais, mas também internacionais. A solução, portanto, não é “a internacionalização” da Amazônia; ao invés, deve crescer “a responsabilidade dos governos nacionais”. O desenvolvimento sustentável, prossegue, requer que os habitantes sejam sempre informados sobre os projetos que dizem respeito a eles e auspicia a criação de “um sistema normativo” com “limites invioláveis”. Assim, Francisco convida à “profecia da contemplação” (53-57). Ouvindo os povos originários, destaca, podemos amar a Amazônia “e não apenas usá-la”; podemos encontrar nela “um lugar teológico, um espaço onde o próprio Deus Se manifesta e chama os seus filhos”. A última parte do terceiro capítulo é centralizada na “educação e hábitos ecológicos” (58-60). O Papa ressalta que a ecologia não é uma questão técnica, mas compreende sempre “um aspecto educativo”.

O sonho eclesial: desenvolver uma Igreja com rosto amazônico


O último capítulo, o mais denso, é dedicado “mais diretamente” aos pastores e aos fiéis católicos e se concentra no “sonho eclesial”. O Papa convida a “desenvolver uma Igreja com rosto amazônico” através de um “grande anúncio missionário” (61), um “anúncio indispensável na Amazônia” (62-65). Para o Santo Padre, não é suficiente levar uma “mensagem social”. Esses povos têm “direito ao anúncio do Evangelho”; do contrário, “cada estrutura eclesial transformar-se-á em mais uma ONG”. Uma parte consistente é dedicada ainda à inculturação. Retomando a Gaudium et spes, fala de “inculturação (66-69) como um processo que leva “à plenitude à luz do Evangelho” aquilo que de bom existe nas culturas amazônicas.

Uma renovada inculturação do Evangelho na Amazônia

O Papa dirige o seu olhar mais profundamente, indicando os “Caminhos de inculturação na Amazônia”. (70-74). Os valores presentes nas comunidades originárias, escreve, devem ser valorizados na evangelização. E nos dois parágrafos sucessivos se detém sobre a “inculturação social e espiritual” (75-76). O Pontífice evidencia que, diante da condição de pobreza de muitos habitantes da Amazônia, a inculturação deve ter um “timbre marcadamente social”. Ao mesmo tempo, porém, a dimensão social deve ser integrada com aquela “espiritual”.

Os Sacramentos devem ser acessíveis a todos, especialmente aos pobres


Na sequência, a Exortação indica “pontos de partida para uma santidade amazônica” (77-80), que não devem copiar “modelos doutros lugares”. Destaca que “é possível receber, de alguma forma, um símbolo indígena sem o qualificar necessariamente como idolátrico”. Pode-se valorizar, acrescenta, um mito “denso de sentido espiritual” sem necessariamente considerá-lo “um extravio pagão”. O mesmo vale para algumas festas religiosas que, não obstante necessitem de um “processo de purificação”, “contêm um significado sagrado”.

Outra passagem significativa de Querida Amazônia é sobre a inculturação da liturgia (81-84). O Pontífice constata que já o Concílio Vaticano II havia solicitado um esforço de “inculturação da liturgia nos povos indígenas”. Além disso, recorda numa nota do texto que, no Sínodo, “surgiu a proposta de se elaborar um «rito amazônico»”. Os Sacramentos, exorta, “devem ser acessíveis, sobretudo aos pobres”. A Igreja, afirma evocando a Amoris laetitia, não pode se transformar numa “alfândega”.

Bispos latino-americanos devem enviar missionários à Amazônia


Relacionado a este tema, está a “inculturação do ministério” (85-90) sobre a qual a Igreja deve dar uma resposta “corajosa”. Para o Papa, deve ser garantida “maior frequência da celebração da Eucaristia”. A propósito, reitera, é importante “determinar o que é mais específico do sacerdote”. A resposta, lê-se, está no sacramento da Ordem sacra, que habilita somente o sacerdote a presidir a Eucaristia. Portanto, como “assegurar este ministério sacerdotal” nas zonas mais remotas? Francisco exorta todos os bispos, especialmente os latino-americanos, “a ser mais generosos”, orientando os que “demonstram vocação missionária” a escolher a Amazônia e os convida a rever a formação dos presbíteros.

Favorecer um protagonismo dos leigos nas comunidades

Depois dos Sacramentos, Querida Amazonía fala das “comunidades cheias de vida” (91-98), nas quais os leigos devem assumir “responsabilidades importantes”. Para o Papa, com efeito, não se trata “apenas de facilitar uma presença maior de ministros ordenados”. Um objetivo “limitado” se não suscitar “uma nova vida nas comunidades”. São necessários, portanto, novos “serviços laicais”. Somente através de “um incisivo protagonismo dos leigos”, reitera, a Igreja poderá responder aos “desafios da Amazônia”. Para o Pontífice, os consagrados têm um lugar especial e não deixa de recordar o papel das comunidades de base, que defenderam os direitos sociais, e encoraja em especial a atividade da REPAM e dos “grupos missionários itinerantes”.

Novos espaços às mulheres, mas sem clericalizações


Francisco dedica um espaço à força e ao dom das mulheres (99-103). Reconhece que, na Amazônia, algumas comunidades se mantiveram somente “graças à presença de mulheres fortes e generosas”. Porém, adverte que não se deve reduzir a Igreja a “estruturas funcionais”. Se assim fosse, com efeito, teriam um papel somente se fosse concedido a elas acesso à Ordem sacra. Para o Pontífice, deve ser rejeitada a clericalização das mulheres, acolhendo, ao invés, a contribuição segundo o modo feminino, que prolonga “a força e a ternura de Maria”. Francisco encoraja o surgimento de novos serviços femininos, que – com um reconhecimento público dos bispos – incidam nas decisões para as comunidades.

Os cristãos devem lutar juntos para defender os pobres da Amazônia


Para o Papa, é preciso “ampliar horizontes para além dos conflitos” (104-105) e deixar-se desafiar pela Amazônia a “superar perspectivas limitadas” que “permanecem enclausuradas em aspetos parciais”. O quarto capítulo termina com o tema da “convivência ecumênica e inter-religiosa” (106-110), “encontrar espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum”. “Como não lutar juntos? – questiona Francisco – Como não rezar juntos e trabalhar lado a lado para defender os pobres da Amazônia”?

Confiemos a Amazônia e os seus povos a Maria

Francisco conclui a Querida Amazônia com uma oração à Mãe da Amazônia (111). “Mãe, olhai para os pobres da Amazônia – é um trecho da sua oração –, porque o seu lar está a ser destruído por interesses mesquinhos (…) Tocai a sensibilidade dos poderosos porque, apesar de sentirmos que já é tarde, Vós nos chamais a salvar o que ainda vive”.